
Um casal... ela sentada numa cadeira de rodas, completamente impossibilitada de grandes gestos....a sua aparência era de uma mulher que foi linda fisicamente,mas que a fatalidade a lançou naquele estado,rosto contorcido,mãos com gestos involuntários, cabelos curtos limpos e sedosos,unhas tratadas.
Ele, um homem jovem (35 a 40 anos, talvez da mesma idade dela) fisicamente atlético, olhar firme mas terno (para ela) nas mãos segurava o guardanapo com que limpava de vez em quando a boca dela, sem nojo nem vergonha nem medo de ser observado, dava-lhe um beijo, e ela sorria, boca torta e desajeitada, fruto da fatalidade.
Ali na esplanada do bar, aquele homem apenas a via a ela, com cuidado ajudava-a a levar a chávena á boca, com a maior naturalidade do mundo ( tipo hoje tu amanhã eu).....ele lia o jornal, ela um livro , que ele ajudava a virar a página (assim como na vida).
Não viam ninguém apenas eles, paravam de ler e comentavam o que liam, ela sempre a sorrir, alheada da sua condição física, ele a olhar para ela, de vez em quando acariciava-lhe o rosto, limpava-lhe a baba, com muito cuidado, e ela sorria ao seu toque.
Fiquei ali, bastante tempo a observar...sem ser observada, e perguntava-me: (o que terá acontecido a este casal? será que foi um acidente em que ele era o culpado,daí toda aquela dedicação....ou será que por motivos óbvios ela se tentou suicidar e os remorsos dele transformaram-se em cuidados? ou ela teve um AVC por tanto setress em que só ela trabalhava , para os dois, ou mais....pois naquela idade provavelmente teriam filhos....ou....ou....( mas porque é que eu teimava em justificar uma situação em que só ele fosse o culpado?) talvez eu quisesse encontrar um álibi para uma forma de amor que é raro nos dias de hoje....
Enfim deixei de me preocupar quais foram os factos que a colocaram numa cadeira de rodas, completamente á mercê da bondade alheia, neste caso da bondade dele....o mais importante de tudo, é que fossem quais fossem os motivos, ele estava ali...firme com ela, junto dela, cuidando dela, a vida era ali, naquele momento, o que passou já não podia ser mudado, mas o que viria a seguir podia ser suavizado...
Pensei aquele homem poderia ter sido um canalha(ou não) mas naquele momento estava ali, só para ela, com ela, alheado ao mundo que os rodeava, alheado a tudo, com o seu amor e carinho para ela, e sentia-se felicidade....leveza...aceitação....AMOR!
Um pequeno pormenor, para mim, mas para eles era VIDA!
Assim nesta reflexão, mais uma vez agradeci aos meus olhos por se abrirem para o mundo de uma forma mais clara, mais lúcida, mais reflectiva, e eu que tinha ido para tomar um café rápido, acabei por me esquecer do tempo.....que tempo? o tempo é a vida em movimento! o tempo são estes grandes ensinamentos, o tempo é a vida que o dá!
R.M.Cruz
Sem comentários:
Enviar um comentário