domingo, 7 de agosto de 2016

Os pés de minha Mãe...


Hoje ao ler uma crónica de António Lobo Antunes os meus olhos voltaram-se para dentro e o meu coração começou a bater tanto que quase morria sufocado na própria batida.A forma como ele fala da Mãe é algo tão sentido que parece que todas as Mães são de facto iguais.
 A minha memória levou-me ao passado,um passado tão intenso que parece que foi ontem.
Cheguei a sentir a sua presença e ocorreu-me um dia, um dia em que tínhamos que percorrer aquele caminho térreo pelo meio do monte até chegarmos à casa da tia Tina, irmã da minha Mãe,mulher forte, de lavouras e gados, que tantas vezes nos (matou) a fome,em troco de trabalhos pesados,era uma partilha dizia ela . Minha Mãe era franzina, magrinha, a fome era a sua maior aliada. Eu de pés descalços vestidinho de chita, trancinhas  no cabelo e os lacinhos eram restos de chita sobradas do vestido.(tudo feito pela mão de minha Mãe)
Eu chorava, porque o caminho já era longo, e os pézinhos encrostados pela falta dos sapatos (talvez por isso eu ainda hoje adoro andar descalça.) E você Mãe,compadecia-se da criancinha que pegava a barra da sua saia,olhava para mim,pegava-me no colo e dizia: Vou levar-te um pouquinho,tu estás pesadinha e a Mãe não pode contigo,eu erguia os bracitos e apontava uma árvore,só até aquela árvore.Está bem,dizia-me ela.Ainda hoje sinto as batidas dos seus pés descalços na terra seca,eu deitava a cabecinha no seu ombro e sentia todos os ossos do  seu corpo, como se eu também fizesse parte dele,fechava os olhos para sentir melhor,  e não ver a árvore a aproximar-se,ouvia os passos firmes e contava o tempo de cada passo.Depois abria os olhos e fingia que não tinha visto a árvore a ficar para trás,o seu colo era tão bom. os momentos foram tão marcantes, que ainda hoje sinto o movimento dos seus ossos no meu ouvido.
Lembro-me que mal o sol se punha tínhamos que fazer o caminho de volta para casa,só com a luz da lua a iluminar os nossos passos.Eu tinha tanto medo, os sons estranhos das aves nocturnas, as sombras das árvores pareciam fantasmas gigantes a querer engolir-nos e a  Mãe cantava,para distrair os nossos medos.
O meu irmão era mais pequenino, mas era mais forte do que eu, és a minha joia preciosa,dizia-lhe ela. E
eu Mãe ?(enciumada) Tu és a minha rosa celeste, eu não sabia o que significava,mas ela dizia-o com tanto carinho e doçura que me enchia  de alegria por dentro.(adoro rosas)
A Mãe era corajosa, ela era o homem e a mulher da casa.Nessas alturas eu olhava a lua e pensava, e perguntava, se os pais são para sempre,porque é que o pai morreu? Ao que ela respondia.Ele não morreu,está ali,vês aquela estrela mais brilhante? é o pai a iluminar o nosso caminho.Eu gritava:Pai, Pai,estás a ouvir-me? dá mais um bocadinho de luz, para a Mãe ver o caminho.E a estrela brilhava mais.Eu acreditava que o Pai me ouvia.Durante muitos anos estive zangada com ele,por ele ter ido embora e nos deixar tão pequeninos.Eu estava zangada por ver a minha Mãe trabalhar tanto,por ser escrava de muitas pessoas que se apoderavam da sua triste condição e não lhe pagavam o merecido.
Hoje já não estou zangada com o Pai,tenho a certeza que ele pediu perdão à Mãe,pois duas ou três  noites antes dela partir,disse-me:O teu Pai veio visitar-me, estava lindo com um fato preto camisa branca,pediu-me perdão e disse que esperava por mim.(Eu soube naquele momento que a minha Mãe partiria em breve, e partiu.
Não consigo imaginar os meus filhos sem mim,mas de uma coisa eu tenho certeza, quando chegar a minha hora,eles os dois vêm ao meu encontro.

R.M.Cruz 

domingo, 24 de julho de 2016

Já não preciso de ti



 Tu eras o homem a quem eu jurei amar, e amei.Amei tanto que me esqueci de mim.Amei tanto que fiz crer a mim própria, que não havia mais nada nem ninguém para além de ti
Mas tu fizeste questão de desvanecer todas as minhas ilusões.
 Eu não estava preparada para o desconhecido, o desconforto...
A perda, o desapego, o deixar ir...
E quando isso aconteceu,achei que o meu mundo iria ruir
A alma inflamou, adoeceu e caiu
O coração não aguentou a dor, e esteve ferido por algum tempo
Porque achei que o que tínhamos era toda a nossa vida, uma casa desfeita, um lar, uma relação...
Estava tão cega que não via nada para além de...e quando algo se quebrou, fiquei  indefesa, porque achei que não conseguia viver sem...
O medo apoderou-se de mim, o chão fugiu debaixo dos meus pés, senti-me sozinha, a solidão quase me devorou.
Muitas vezes não nos apercebemos que a outra parte leva-nos a isso,à dependência total, ao medo do que há para lá do que temos,ao receio do novo.Tudo em nome de um amor que nunca existiu, e se existiu era doentio...
Foste embora, e contigo levaste os meus sonhos,levaste a minha vontade de viver....fiquei como um barco à deriva,sem porto de abrigo, sem farol de orientação, sem luz sem estrela guia.
O que eu não sabia, é que tu não levaste nada, apenas causaste uma tempestade, e eu fiquei desorientada,tu nunca foste a minha tábua de salvação,nunca foste o meu farol, nunca foste a minha estrela.
Hoje olho para trás e agradeço aos céus por teres saído da minha vida,porque já não preciso de ti.
Andei no meio do caos,suportei a tempestade, procurei-me no meio dos escombros e encontrei todos os meus pedacinhos, e colei-os um a um, até ficar inteira.
Não digo que não tenho cicatrizes, tenho-as! Mas fazem parte da minha força. 
Os japoneses acreditam que quando um objeto quebra, vale a pena consertá-lo, pois ele não perde o seu valor, ao ser consertado, ele torna-se um objeto único e especial. E passa a valer mais do que antes.
Já não preciso de ti, já não me importo quem és de onde vieste,para onde vais,só sei que passaste na minha vida como um furacão, mexeste comigo, mas não me arruinaste.
Hoje sou outra mulher
Hoje sou Eu com tudo o que tenho
E sabes uma coisa? Não levaste os meus sonhos, porque os sonhos voltam para a vida de quem os sonhou.
Ergo os meus olhos e vejo-me de cima, e sei que sou feliz!
Já não preciso de ti

(todos os meus escritos tem histórias escondidas,verdades expostas, e este é um deles,quem se identificar não é pura coincidência)
R.M.Cruz

sábado, 16 de julho de 2016

Há ninhos no meu peito....

Há ninhos no meu peito
Das aves que em mim poisaram, no meu corpo feito árvore
Na minha alma feito cama
Estendo os lençóis brancos, para que a pureza não desvaneça
Nem o escuro me amedronte
Ainda existem papões no sótão da minha memória
Abro a porta devagarinho, empenada,ruge ao mais pequeno movimento
E eu encolho-me não vá o papão acordar
Afasto as cortinas  de teia de aranha, e o sol da manhã encosta-se nos beirais...na prontidão de um segundo investe contra a escuridão,clareando toda a minha mente
Não foi desta que o bicho papão me torturou
Mas ele espera, tem todo o tempo do mundo, há-de morrer depois de mim, jurou e cumprirá
Não sei de mim, nestes becos da minha alma ensanguentada,ferida,dolorosa fria
Não sei do meu sorriso de criança.Comeria-o o papão?
E nestes pensamentos absurdos de uma mente que não mente, busco desesperadamente a luz do sol que me leva ao mais belo lugar do mundo
Ainda ouço ao longe o baloiço da minha laranjeira, e os meus olhos estão lá,de cabeça para cima,vejo as laranjas por entre o azul do céu.
Parece que elas nascem das nuvens
Busco desesperadamente o silêncio para que aquela voz de anjo ressalte aos meus ouvidos uma voz doce e firme,chamando por mim
E eu corro, pés descalços,  e nas mãos a esperança de um aconchego, de um beijo, de uma ternura sem par
Melhor que isso os braços de minha mãe erguendo-me no seu colo
Não há papão que me encontre, nem fantasma que me apavore,não há casa mais bonita do que o coração da mãe.
A pobreza tem algo de nobre,tem a simplicidade e a humildade daquilo que verdadeiramente somos
Morar no coração da mãe é morar nos braços de Deus, é aqui que existe a maior riqueza da vida,o SER!
E mesmo que ela se ausente pela eternidade, ela nunca nos deixa sem casa,porque mãe é infinita
E sempre que o papão espreita, há uma luz que o cega
Há ninhos de amor no meu peito, com fios de saudade que apertam até sufocar.
E nesse sufoco há o tilintar dos sinos, de anjos  que se ajoelham em roda da minha alma, acalmando as minhas feridas, atenuando a minha dor...

R.M.Cruz



domingo, 22 de maio de 2016

Salva-me!


Aperta-me contra o teu peito,enrosca os teus braços no meu corpo
Necessito de um abrigo, de um aconchego, de um refugio
Fujo dos olhares enfurecidos, ofuscados pela luz do amor que brota do meu coração
Coração magoado pela força das palavras,sangrando pela iniquidade de certas atitudes
Não consigo respirar, não consigo dar um passo, algemado pelas correntes invisíveis
 De pensamentos que me atrofiam o cérebro
Há energias cor de carvão,tentando escurecer o meu viver
Persegue-me uma fome louca de seres que não buscam a luz dentro de si mesmos
Que dedicam cada momento da sua vida, a perseguir quem trabalha,quem se esforça,quem se levanta
Procuro-te em toda a parte,preciso de um abrigo,onde possa descansar os meus dias
Procuro os teus braços, o teu aconchego,onde eu possa largar as armaduras, e dormir nua em ti
Sigo vagueando, pesa-me o sentido de responsabilidade, de um mundo que não sabe amar
De um mundo que só tem bocas abertas,para difamar,julgar,ofender....
Não sei de mim, de que é feito o meu coração
Não sei dos meus dias de pureza,de criança descalça,cabelos despenteados,de sorriso aberto.
Como se o sol estivesse dentro dela,e brilhasse através dos seus olhos
Não sei do sabor da esperança,nem dos dias com gotas de chuva, em que eu dançava de braços abertos sentindo as gotas no rosto, salpicando-me de sonhos
Não sei de quem falo, porque não me reconheço nestas palavras
Talvez as armaduras sejam tão penosamente pesadas, que me tiram a percepção de quem sou
Preciso de ti, como preciso de mim
Tira-me daqui, de onde entrei empurrada pelas carências sociais,pela corrida de interesses, pelo desumanismo
Esta não sou eu.
Quando a noite cai sobre mim, vejo-me de cima, e tenho pena, da pessoa em que me tornei
Ajuda-me!
Estendo para ti a minha alma, toma conta dela,está amarfanhada pelas sombras, pelos desgostos,pela ingratidão...
Alcança-me, foca em mim o teu sorriso para que eu me guie através da tua luz, e de novo volte a ser eu
Abraça-me, como abraças uma criança que chora, como abraças uma mãe que morre,como abraças um filho que parte,como abraças  um pai que se ausenta,como abraças o grande amor da tua vida.
Abraça-me!

(inspirado numa conversa com uma amiga.Todos nós necessitamos de um abraço que nos salve)
A foto é da minha autoria.

R.M.Cruz


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ainda olhas a lua.....


Trazes nos olhos as noites de luar com sonhos de estrelas guardados no peito
Trazes no coração a alegria de uma menina, e o sofrimento de uma Mãe
Uma menina que cresceu depressa demais,  e de uma Mãe que se tornou mulher à  força do amor e da dor
Dor que carrega na alma,ao sentir que o filho cresceu e depressa se tornou homem
A vida passa depressa, a uma velocidade atroz, e hoje sentas-te na cadeira da sala
E ainda vês o teu menino a saltar de pedra em pedra, ainda vês a bola a fugir-lhe dos pés,e as suas mãozinhas pequeninas estendidas pedindo-te colo. Ainda sentes o sabor dos seus joelhinhos esmurrados, e os seu braços em roda do teu pescoço,ainda sentes o calor da sua boquinha enchendo-te de beijos.
O tempo passa,mas tu retens na memória e no coração tudo o que te fez feliz, e o teu sorriso ainda se mantém,porque tu sabes que o sorriso é balsamo de cura,para minimizar a dor.A tua e a de quem te rodeia.
Cuidas do amor,como quem cuida de uma singela flor,tu sabes que toda a flor que não é cuidada,morre.
És Mãe extremosa,esposa dedicada,não deixas os teus amores por mãos alheias.Tu sabes que os sonhos se realizam,mas para isso tem que haver responsabilidade e dedicação.
Ainda olhas a lua e as estrelas,ainda te encantas com o arco íris....a menina que foste,ainda a guardas dentro do peito, e nas noites de luar,deixa-a sair para agradecer à lua os sonhos realizados e pedes força para os que ainda estão por realizar.Brincas com as estrelas e pedes ao Universo que te guarde um cantinho no infinito,para colocares todas as tuas mágoas, e assim possas sorrir sem medos.
Os teus fantasmas já não te atormentam,tu conhece-los bem, e aprendeste a encara-los de frente, sem lhes dar  mérito.
Sabes que caminhas para amanhã, e sabes que hoje é o mais importante.Vives a vida dia a dia,passo a passo.
Ainda tens tempo para dar alegria aos outros,tu sabes que a partilha de afetos engrandece o ser humano, e não renuncias um abraço um carinho de quem já pouco espera da vida,a não ser a hora de fazer a viagem final.
És direta nas ações  e nas palavras,não te intimidas com verdades que devem ser ditas,és clara como a água,e severa como o fogo.Só se queima quem não souber chegar-se a ti, de outro modo aqueces a alma de quem te sabe olhar.
O teu sorriso afasta os medos, nasce a luz e espantas as trevas.A tua alma é grande, tão grande que albergas dentro dela tantas coisas,tantas pessoas,tantos amores....
És unica!

(Dedicado com muito carinho a C.M.)


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Já não colho flores.....


A vida passa num piscar de olhos
Os filhos crescem mais depressa do que as árvores
Mais velozes que o vento
Os filhos são como trovões em dias de tempestade
Vêm com o sol e desaparecem com as nuvens
Apanham-nos distraídos, e quando olhamos para o lado, já foram
E vieram, e já nos trazem flores em forma de netos
É assim, a vida é como um piscar de olhos
De repente aquela carinha inocente transformou-se num rosto de homem
Um rosto cheio de responsabilidades, de uma vida que se repete
Já não cabem no nosso colo, e queríamos tanto aconchega-los
Queríamos tanto beijar suas mãozinhas,juntar o seu corpinho ao nosso
De repente, há outra família dentro da nossa
A saudade do peitoril da janela ouvindo o cantar dos pássaros
E as colheradas de sopa, em forma de avião, e a boca garagem, albergando todos os carros dos amigos e conhecidos.
E os joelhinhos esmurrados, pedindo um beijo, balsamo de cura
E as flores do campo enfeitando todos os cantos da casa,fruto da recolha de um passeio pelo campo em dia de domingo.
Já não colho flores, nem sei o nome das estrelas, já não sei de que lado nasce o sol
Nem de que cor é a água do mar
Lembro-me do jogo da glória,em que a maior glória era estarmos juntos
E as musicas dos Scorpions  e do Roberto Carlos no disco de vinil nas manhãs de domingo
Não consigo esquecer os vossos sorrisos, e o barulho das pipocas a saltar no tacho
Não consigo esquecer os brinquedos,e a bicicleta com o travão estragado, a bola no canto da sala semi vazia, e os dinossauros espalhados no sofá magoando-me cada vez que me sentava
Lembro-me dos berlindes coloridos espalhados pelo chão,e a boneca esquecida no jardim
E os olhinhos vidrados a olharem para nós em dia de praia, a azafama da preparação do lanche, e o baldinho não podia esquecer,para a construção de castelos de areia, que depois se desmoronavam com as ondas do mar
E as noites em que ardiam de febre, e dormitava-mos como se a cama tivesse sido construída para o dobro das pessoas.
A vida passa num piscar de olhos....já não há estrutura para pega-los no colo...
Já não sei o nome do comboio da vida, nem sei para que servem os caminhos, e as janelas o que fazem fechadas.
A vida passa num piscar de olhos

R.M.Cruz


sábado, 19 de março de 2016

Pai sopro de Anjo

Pai é  um sopro de anjo
Que acende a fogueira do aconchego,nas manhãs frias e tempestuosas
Como uma árvore de fortes raízes,que suporta os mais fortes vendavais
Pai é a mão forte que não te larga
É aquele que te aconselha,mesmo sabendo que não o ouves
É aquele que te repreende quando os teus passos vão a caminho do precipicio
Pai é muro de betão,quando se trata de defender a dignidade de um filho
É educação
Amor
Proteção





Pai é correnteza de sabedoria,é mar calmo é abraço forte
Pai é alma colorida por fora e inquieta por dentro
Pai está sempre presente,ainda que pareça ausente
Pai é a estrela cadente,que vês na noite escura,é desejo cumprido
É ternura
É força
É luz
Pai é amigo,que te abraça sorrindo
Que chora nas tuas quedas
Pai cala quando tu achas que tens razão
No silêncio eleva os seus olhos aos céus pedindo que te proteja
Pai é caminho lavado de lágrimas e aflições
Pai não sonha,ele vive o sonho
Ele sorri para ti, e faz o impossível para que sejas feliz
Carrega a tua cruz,quando desfaleces no caminho
Ele nunca tira os seus olhos de ti, vê-te crescer para vida,vê-te crescer para o homem,vê-te crescer para o mundo....mas nunca te ver crescer para ele...serás sempre o seu menino
 O tempo fustiga-o com os dias que passam à velocidade da luz
Os anos vergam-lhe os ossos,a luz turva-lhe a visão, e o corpo não lhe obedece
 Nunca se apaga a estrela do seu coração,ainda que ele morra na escuridão
Nunca secam as suas águas,ainda que ele morra na secura da tua ausência
Nunca perde a fé de te abraçar,ainda que o abraço nunca aconteça
Nunca tira os olhos da janela,na esperança de te ver caminhando para casa
Á noite na solidão da vida,por entre memórias que o tempo esqueceu
Ele escuta as tuas gargalhadas pelo vazio da casa, escuta os teus choros com medo do escuro
E a custo,levanta-se cambaleando até ao teu quarto, deita-se na tua cama, abraça a almofada sentindo-te
A manhã desperta-lhe os sentidos, de uma noite em claro,velando o sono do filho,que não sabe onde está.
As lágrimas trazem-no á realidade crua
Olha a casa vazia,e já não vê a abundância de risos, nem as correrias das crianças, já não vê os choros de joelhos rasgados das brincadeiras nas árvores...o seu olhar pousa na bola vazia no canto da sala, e na prateleira uma moldura, com sorriso de criança permanente.
Agarra-se a esse sorriso, e permanece nesse momento,até que a morte o venha buscar
Ele sabe, que nessa altura tu virás,mas....os seus olhos já se fecharam para sempre, e junto com eles os seus abraços.
E tu, farás uma retrospectiva da tua vida e chegarás à conclusão,que perdeste tudo.


(Dedicado a todos os pais e todos os filhos)

R.M.Cruz






sexta-feira, 18 de março de 2016

"Retratos" A Carta



Faz-se tarde para te dizer o que sei da tua ausência, faz-se tarde para te dizer a falta que me faz o teu abraço e o cansaço abalroa os meus sentidos, porque se faz tarde, para tudo o que já foi cedo.
Não sinto os meus pés no chão… vagueio pela noite à procura do teu sorriso, das tuas gargalhadas...do teu… bom dia mãe!
Arrancaram-te de mim….
Alguém aqui sabe o que é a dor de perder um filho? Não? Oxalá ninguém passe por isto, pois a dor é tão medonha que nos engole a vida, passamos a ser fantasma em busca de respostas que nunca chegam, e se um dia chegarem é tarde demais.
Malditos! Ele era tão jovem, nunca fez mal a ninguém, porque é que o ser humano se comporta como besta? Todos somos livres de ser quem queremos ser, se a minha forma de viver não interfere com a tua, porque me julgas? Porque  me subestimas? porque me desrespeitas? Não sou eu um ser humano como tu?  Somos seres tão cruéis tão horrorosamente infameis.
O sol já não brilha, as nuvens  negras povoam a minha mente, ninguém sabe das minhas noites, escuto no silêncio o choro do meu filho, que  partiu tão jovem, e não consigo tira-lo da minha cabeça, nem arranca-lo do meu coração, porque a sua alma foi acorrentada, pelas palavras de miúdos malcriados e cruéis,  que não mediram as consequências  dos seus atos. A cada palavra um soco, a cada indiferença um pontapé, a cada gesto uma facada, a cada preconceito, uma corda na garganta, asfixia total ….De repente a morte, só ficou o lamento de uma mãe que vagueia pelas margens de si. Uma vida arrancada, um mundo que não sabe amar, compreender aceitar respeitar.
Mataram o meu filho lentamente, pegaram na sua dignidade e levaram-no ao suicídio.
Aberração? Não! Paneleiro? Não!
Que raio de gente é esta? Que raio de mundo é este? Eduquei o meu filho com amor, e ele morreu com o ódio de quem o ensinei a amar.
Cabe na minha mão a incúria, de não o proteger de mentes venenosas, más, horrorosas….mas a inocência de quem não quer mal a ninguém, esqueceu-se  que o mundo não  é igual para todos, e nem sempre o amor protege, antes pelo contrario o amor torna as pessoas indefesas pela sua pureza de espírito
, pelo seu toque de magia, nunca pensei que o amor, fosse a causa da morte do meu filho.
Não! Não foi o amor a causa. Foram as vossas mentes perversas, foi o vosso desrespeito pela vida humana, pelo outro, pelo próximo.
O amor não tem rótulo, nem sexo, nem nome…o amor apenas É.
 Não mataram apenas o meu filho, a minha alma despiu o meu corpo e foi com ele.
Nos meus olhos ficaram os dele, para  guiarem o meu corpo  até à sepultura.
R.M.Cruz

quinta-feira, 3 de março de 2016

A lua chorou


Cai o orvalho em noites de horror
Um jovem é morto sem pena e sem dor

Sacaram-lhe a vida, de flor nos beirais
Papoila ao vento, silenciaram teus ais

As estrelas do céu, guardam segredo
Viram teu corpo, no chão do degredo

A lua chorou, triste e dorida
O a manhã raiou com o teu corpo sem vida

Estendido no chão, a relva teu leito
Teus pés atados, num corpo desfeito

Choram as aves, que dormiram contigo
Lágrimas de orvalho de um mundo de perigo

Calem-se as vozes, há crime no ar
Há silêncios ...nos corações a chorar

Morreu uma flor, na beleza da vida
Arrancaram sem dor, morte triste e dorida

Grito ao mundo...um jovem morreu
Numa sociedade que não o protegeu

Que o céu te receba, pronto a te amar
Que os anjos te cantem canções de embalar

Descansa na luz,na paz e no amor
Nos braços de Jesus nosso Senhor

Morrem crianças,ás mãos de quem os devia amar
Sou Mãe tenho filhos, estou triste a chorar


Dedicado ao jovem Rodrigo Lapa
R.M.Cruz





sábado, 23 de janeiro de 2016

O amor libertou-nos....


Nada foi em vão meu amor
A entrega de um ao outro, fez-nos crescer fortes
A vida que vivemos juntos, foi o nosso mar de certezas
Os nossos filhos cresceram em amor
A nossa casa foi um porto seguro
O tempo passou meu amor
E a vida não mudou
Apenas alterou a nossa situação
Não sigamos os modelos anteriores
Nós somos o nosso próprio modelo
Vamos amar-nos sempre
Temos tanto em comum
O amor dos nossos filhos
Hoje liberte-mo-nos,façamos o que nunca foi possível fazer
Não  nos prendamos mais
Vamos viver fora de nós
Dentro já sabemos o que temos, com o que podemos contar
Vamos sem medo, a vida é efémera
O salto vamos dá-lo mas agora de mãos soltas
Voaremos pelas margens do nosso ser
Nunca deixaremos de nos amar
Fomos um para o outro o crescimento,o respeito, a realidade de uma vida a dois
Voemos para onde nos apetecer, e regressemos sempre que sentirmos saudades
Vamos estar sempre ali,um para o outro,porque o tempo fez-nos os melhores amigos de sempre
Amar é libertar,amar é desejar a felicidade do outro,amar é soltar as amarras
E hoje o nosso verdadeiro amor, libertou-nos
Vamos sempre saber um do outro, vamos amar-nos fora do compromisso 
Nenhum de nós carrega mágoas, pensemos um no outro com carinho,porque nós somos os maiores confidentes.
É dolorosa a nossa separação,mas mais doloroso é viver uma vida de aparências
Não é justo para nós, sempre fomos verdadeiros connosco e com os que amamos
Façamos o que tem que ser feito
Entreguemos à vida a nossa vontade de sermos nós, mas chegou a hora de cada um SER uno.
Mesmo que os dois levemos tudo um do outro, aos poucos vamos largando,até nos tornarmos no nosso EU
Há essa necessidade, não temos que seguir protocolos, temos que seguir o nosso coração.
Vai amor, sem medo nem mágoa,o tempo não espera, e tens tanta coisa para fazer
Eu também vou, não me esquecerei nunca de ti,até porque levo o teu amor nos meus olhos
O mundo não compreenderá esta nossa decisão, mas que importa o mundo,se a vida é nossa?
Seremos sempre os melhores amigos
A nossa gratidão é mutua,pelo tempo que dedicamos um ao outro
Vivamos felizes, na amizade,pois é ela a nossa maior cúmplice


(Dedicado aos meus amigos. A amizade está presente nos corações daqueles que não desistem de SER felizes.Contem sempre comigo)
R.M.Cruz




  


domingo, 10 de janeiro de 2016

Filho da Natureza

 Hoje ao olhar-te nos olhos, convidaste-me abrir as janelas das minhas memórias
E recuei no tempo...um tempo pouco distante...mas passado
De repente vi um menino, que corria livremente atrás dos pássaros
Como se, ele próprio tivesse asas
Lembro-me de o ver subir às árvores, colher laranjas, e castanhas....e apanhar flores amarelas, que levava à Mãe, como se fosse o maior e mais caro presente do mundo
E a felicidade desse menino era a natureza
Lembro-me de o ver de mochila ás costas, com passos seguros, tão seguros como o seu gosto pela escola  
 Um menino aplicado,estudioso....com as mãos cheias de sonhos
As suas maravilhas eram tão sublimes...que eram dignas de registo de jornal
O seu olhar sempre atento às injustiças do mundo
Sempre foi um menino homem.
Porque a vida o fustigou muito cedo, e cedo se fez homem
Há filhos órfãos de pai, e ele já o era sem o ser...
Mais tarde confirmou-se, e o menino ficou  órfão de verdade , mas entre uma coisa e outra o abismo é igualmente profundo e vazio...
A paixão chegou cedo,e a imaturidade apanhou-o nas redes de um amor inocente e puro, negando-lhe a existência de um ser livre e despreocupado
De filho órfão, tornou-se  pai , e a vida colocou-o perante uma responsabilidade fora da idade
Foi como se  a vida quisesse repor ...um pai  em troca de outro
O menino homem, cresceu com amor no coração, e ao invés de se revoltar, reciclou todos os seus fantasmas e transformou-os em aceitação
Hoje é um Pai extremoso, a vida não lhe deu um pai como exemplo, nem um manual de instruções
Ele  é o próprio exemplo
O trabalho é o seu caminho, e os sonhos adormeceu-os numa almofada de cores, para quando acordarem estarem com as mesmas tonalidades com que ele os pintou
A Natureza está agora mais longe, os campos onde ele corria, são quadrados de betão armado, em forma de casas.Nenhuma casa é ,como era a dele.
Tem os seus mistérios, mas não os revela, todos temos direito a ter os nossos jardins secretos, e ele tem os dele.
O seu tempo de ócio preenche-o a cuidar dos bonsais, trata deles com tanto carinho, como se ele ainda fosse aquele menino, que cresceu tanto tanto, que são as árvores que trepam nas suas mãos.
As laranjeiras, os castanheiros , os carvalhos, os ciprestes, as oliveiras.... são árvores da sua infância....levou-os para casa, como  levou a criança que tem dentro de si....
Ainda leva flores à Mãe,  o maior amor da sua vida...
flores de afetos, de amor, de companheirismo, de preocupação de gratidão
Parece um homem comum....mas existe algo que o distingue dos demais
Tem um coração de mar, e uma alma de sol, as suas palavras são como chuva em terreno seco, o seu olhar é a luz de quem ainda não descobriu as janelas do horizonte.
É filho da Natureza!
R.M.Cruz 

 (Dedicado a ti M.M. com admiração e respeito  )