quarta-feira, 26 de março de 2014

Não importa...

Não importa quem fui, os caminhos que percorri
Não importa os erros , nem as lágrimas que chorei
Não importa quem amei, as saudades que senti
Não importa os sonhos que sonhei, nem dos quais eu desisti
Não importa as noites acesas, nem as velas papagadas
Não importa as fraquezas, nem as mãos tão calejadas
Não importa as impurezas de noites frias sem luar
Não importa as incertezas, se irias ou não voltar
Não importa quantos amigos eu perdi na caminhada
Não importa as tempestades em que morri afogada
Não importa os julgamentos, e as culpas sem razão
Não importa os fortes ventos que me arrastaram pelo chão
Não importa os gritos em que o mundo não me ouviu
Não importa o infinito, nem as subidas ao céu
Não importa as descrenças em horas de aflição
Não importa as doenças, de que fui vitima,ou não
Não importa os mamadouros, aos jorros da minha mama
Não importam os tesouros, nem a dor de quem tanto ama
Não importa o colo nem os meus cabelos brancos
Não importa o desconsolo, nem os silêncios em prantos
Não importa as gretas, nos meus pés nus e descalços
Não importam as valetas, nem os sonos em percalços
Não importa os momentos em que fui Mãe e mulher
Não importam os tormentos que passei sem te dizer
Não importam as corridas, em gritos na madrugada
Não importa a certeza, de se ser, tudo e quase nada
Não importa as perguntas que ficaram sem respostas
Não importa as vezes que me apunhalaram pelas costas
Não importa quantas vezes eu morri e renasci
O que importa é que eu cheguei até aqui.
Bom dia amigos! R.M.Cruz

domingo, 23 de março de 2014

Deixa a porta aberta


Deixa a porta aberta
Para que eu não sinta a dor da partida
Não arrumes as chávenas de ontem
Não me digas adeus
Sai pela madrugada....antes mesmo do sol nascer
Dá-me tempo
De sentir a tua falta
Não me digas nada
Dá-me um beijo como sempre fazes
Deixa ficar na minha boca o teu sabor
Dá-me tempo
Deixa o teu perfume no ar....e os chinelos pelo chão
Não leves ainda os abraços
Abraça-me como se viesses á noitinha
Aconchega-me os lençois
Sussurra-me mais uma vez ao ouvido, que me amarás para sempre
Ainda que o sempre termine hoje
Não feches a porta, o seu estrondo seria como uma facada no meu peito
Se tens de ir...vai!
Mas não me digas adeus
Nunca voltes para vir buscar os chinelos, nem nada que te pertença
Vou pensar que morreste
Vou deixar o meu coração acreditar
Jamais eu conseguiria viver....sabendo-te com outra mulher
Pouco a pouco o teu perfume vai-se esvaecendo no ar
Se eu um dia passar por ti, direi a mim mesma que vi um fantasma
Se o meu coração teimar em sair do peito, amarralo-ei com a corda da saudade
Para que ele pense que morreste.
E se um dia eu encontrar outro amor
Dir-lhe-ei que tu nunca exististe, porque um amor não morre, nem se vai embora
E as chavenas que ficaram sobre a mesa, serão as mesmas....provarei a mim mesma
Que tu morreste, e mas deixaste por  herança.
Os teus chinelos....dar-los-ei a um pobre
E direi que são uma reliquia tua , pedirei que os trate bem
Pois eles por momentos mantiveram a tua imagem para mim....são mais dignos do que tu
Não fugirei de um novo amor
Só porque o velho se acobardou e foi embora
Não desejo que sejas feliz
Pois a felicidade é para quem está vivo, e tu morreste quando foste embora
Não foste capaz de sentar e conversar
Quem sabe evitariamos  a tua morte.
Já não estou de luto, o sol entrou pela janela, e arrancou de vez a tua imagem
Abriu-me os olhos da razão, e mostrou-me que há amor para além do teu
Fecharei para sempre as portadas da saudade
Porque onde há amor, há vida.
Onde há amor a saudade esquece-se de quem foi embora
E tu foste
Para sempre.

R.M.Cruz


(momentos que não são meus, mas que os torno meus....o poeta é um ladrão)






terça-feira, 18 de março de 2014

Até aqui chegar.....



 Vim das estrelas dos cometas, vim das galáxias
Vim dos  átmos vim da luz do infinito
Caminhei por entre os deuses e bebi da fonte do saber
Dancei com os anjos, passei pelas portas do inferno
Tudo me foi permitido
Até aqui chegar
Procurei uma caverna, entrei e encubei, até ganhar forma humana
Como uma flor que nasce da terra....nasci
Entrei num mundo completamente novo e gelado
Senti frio
Perdida..... chorei
O mundo recebeu-me com uma palmada
Senti que não era bem vinda
A partir deste momento, tudo me foi proíbido

De repente uns braços enormes, enrolam-se em mim, senti o seu cheiro
Enlaça-me de amor ,e de beijos aveludados, enche-me a face
Os seus braços eram como uma nuvem branca,aconchegando-me
 Senti o  calor do seu peito
Tive fome
Bebi das suas fontes que manavam leite e mel
Saciei-me
Vi uma linda forma humana, olhando-me com olhos de amor e dor
Senti o bater do seu coração cansado
E os seus cabelos despenteados
 Pelo seu rosto caíam gotas de suor
Que se misturavam com lágrimas de alegria
Agarrei no seu dedo, com toda a força que a vida me dera, e nunca mais o larguei!
Nesse mesmo instante, resolvi dar-lhe um nome
Chamei-lhe, Mãe!
Desde esse dia, nunca me abandonou, é como um cão me segue, como uma sombra que não se despega
Como uma chama que não se apaga
Juntas olhamos o céu, o infinito de onde eu vim
Eu suspiro
E ela diz-me
Um dia..... um dia  voaremos para casa.
E eu acredito!

R.M.Cruz





quinta-feira, 13 de março de 2014

Há dias que canso!


Há dias que canso!
Canso do teu olhar ausente, da palavra que não foi dita
Canso da porta aberta, da cama feita, do quarto arrumado
Há dias que canso!
 Canso das pedras do chão, e das pessoas que passam, das saudações forçadas
Canso da poesia,  canso das canções de amor que ouço sozinho
Canso do grito na noite e do silencio que me apavora, e canso de gostar de ti
Há dias que canso!
Canso da casa deserta, canso de te esperar, canso de ouvir o telefone com todas as vozes, menos a tua.
 Canso das aves que voam, e não me levam com elas, canso dos poetas e dos seus sonhos



 Há dias que canso!
 Canso de me lembrar de ti, canso de emaginar o teu rosto, e as tuas caricias
Canso de dançar o tango sozinho, e de me sentar na cadeira já gasta, canso da mesa da sala
Canso do cigarro aceso, canso dos desenhos que invento
Canso do teu abraço, que ainda espero, canso dos teus beijos que me prometeste, e canso de gostar de ti
Há dias que canso!
 Canso do gato que me atormenta, pedindo-me mimos, e do cão que ladra lá fora anunciando todas as visitas, menos a tua.
Canso do peito rasgado, da dor da saudade, canso do teu perfume, que fica na casa em vez de ti
Canso dos pratos na mesa, e da vela apagada que morreu  á tua espera.
Canso de olhar a lua,canso das estrelas, do sol, do mar e canso-me de mim
Há dias que canso!
Canso das flores do jardim, que se abrem na tua ausência, cando do sol que entra pela janela, quando tu não estás.
 Canso dos filhos que nunca tive, e das flores que não te dei, canso de todas as mulheres, que me lembram de ti.
Canso dos encontros que imaginei, canso do meu corpo cansado da tua ausencia, canso da expectativa que me levanta e me derruba.
Há dias que canso!
Canso do comboio que passa e não pára naquela estação, canso-me do carteiro que não trás carta tua, canso de quem me pergunta por ti.
Canso do filme e das lágrimas que choro, do frio que sinto e do calor inventado canso da revolta
Há dias que canso de gostar de ti.

R.M.Cruz

quinta-feira, 6 de março de 2014

Tanto, de nada.....



 Tanto medo,tanto cansaço
Tantos braços estendidos à espera de um abraço
Tantas bocas, tantos lamentos
Tantos corações perturbados, perdidos nos seus silêncios
Tanta cama vazia, tanta noite na solidão
Tanta magoa encoberta, à espera da uma mão
Tanto máscara imperfeita, tanta augustia da descoberta
Tanto homem no deserto
Tanta falsidade, tanta fenda aberta
Tanto coração faminto,tanta boca, tanto desejo
Tanta fome  de amor, e tanta ausência de beijo
Tanta falta de lar, tanta construção de casa
Tanto idoso sem familia, tanto pássaro sem asa

Tanto grito de liberdade,tanta garganta muda
Tanta  necessidade e tanta falta de ajuda
Tanta má educação, e tanto, de nada feito
Tanta podridão, tanta falta de respeito
Tanta ganâcia e  tanto dinheiro
Tanta falta de ética tanto galo no poleiro
Tanto irmão na desgraça, tanta ignorância á solta
Tanta desigualdade tanto grito de revolta
Tanto amor para dar, e tanto para receber
Tanta bocas a pedir e tão poucas a agradecer
Tanto sol tanta luz, tanta estrela a brilhar
Tanto homem e tanta mulher, e tanta gente sem par
Tanta panela ao lume, tanta comida a fazer
Tanta boca aberta, sem nada para comer
Tanta canção de embalar, tanta falta de consolo
Tanta criança a chorar, tanta mãe para dar  colo
Tanto carro, tanta roda, tanta gente a andar a pé
Tanta igreja, tanta religião, e tanta falta de fé
Tanto hospital cheio, tanta doença, tanto moribundo
Tanto médico sem emprego, tanta desgraça no mundo
Tanta palavra escrita, outra tanta por dizer
Tanto livro e livraria, e tanta falta de ler
Tantos braços, tantas pernas, tantas mentes tão brilhantes
Tantos bêbados ,tantas tabernas, e tantos ignorantes
Tanta homem e mulher, tanta sede e solidão
Tanta falta de entendimento e tanta violação
Tanto desiquilibrio, em tantas mentes brilhantes
Tanta praxe tanta morte, no meio dos estudantes
Tanto homem iluminado,que de tanto se apráz
Tanta filosofia, e tanta falta de paz
Tanta alma tanto ser, tanto anjo em tantos céus
Tanto demónio á solta e tanta ausência de Deus
E assim neste caminho, onde a vida é, e não é
Construimos o destino, e caminhamos sem fé
Fico-me por aqui, deserto-me da minha dor
Pois as palavras sem  atos, são ocas e sem valor
Escrevo aqui o que sinto, mas também quero fazer
Digo a verdade,não minto,  faço por acontecer
Palavras leva-as o vento, diz o povo e com razão
Mais vale viver fazendo, do que estender-mos  a mão.

R.M.Cruz






domingo, 2 de março de 2014

A alma sorri....

No silêncio da noite
Todos dormem....
Eu fico acordada...o sono não vem, as emoções do dia não me deixam repousar
O corpo agita-se, com as palpitações do coração, a alma, essa, quase abandona o corpo
O pensamento não pára, as memórias do dia ressaltam, atrapalhando-se umas ás outras, na ansia de sairem todas ao mesmo tempo.
E nesta corrida, perdem-se na memória os momentos mais puros e verdadeiros.
O corpo não descomprime e a alma cansa-se, desfalecendo no seu próprio estado....
Por entre as frestas da janela, avisto a lua, e as estrelas. Sinto-me preveligiada, tenho uma janela virada para o céu.


 E os olhos transmitem ao corpo a beleza do Universo
O corpo acalma, as memórias mais inquietas
adormecem....e a alma acorda!
Os olhos fecham-se.
Por entre as colinas da memória, pé ante pé, levantam-se as memórias dos momentos mais puros.
Um olhar,uma palavra,um toque,um sorriso......um abraço!
A alma sorri!
E o coração sorri com ela.
E enquanto o corpo adormece de exaustão, a alma e coração dançam na noite
Tendo como palco, um fundo de céu, iluminados pela luz da lua, e o sorriso das estrelas.
As emoções adormecem ao sabor da dança....Continuando pela noite dentro, agora, nas asa do sonho.
O corpo entra numa serenidade, quase morte, nem um unico gemido se ouve,apenas o bater do coração, que lhe conserva a vida.
E assim neste baloiço da vida, as emoções aguardam, uma nova aventura, e o corpo sabe que não reste muito tempo.
E agradece a cada momento, um novo presente!

R.M.Cruz